Como Samira Chamma expandiu o seu público graças à Groover e o Sarau Brasilis

par Maëlle Parmentier

Samira Chamma é cantora e compositora que costura palavra e melodia para cantar os afetos do viver. Nos últimos anos, tem levado a palcos da cena independente paulistana suas canções autorais, que atravessam a MPB, o samba, o forró e outros ritmos brasileiros, com delicadeza e intensidade.

Suas canções habitam o espaço entre o desejo e a angústia, a escuta do mundo e a investigação de si. Com letras reflexivas que revelam a busca por autenticidade e presença, a artista vem construindo uma trajetória de parcerias com diferentes artistas e coletivos, como o Coletivo Mulher, lançamentos de singles, videoclipe e apresentações em casas e centros culturais de São Paulo e arredores.

Hoje, ela se deu o tempo para responder às nossas perguntas sobre a sua carreira e a sua experiência no Sarau Brasilis em parceria com a Groover.

O Sarau Brasilis é um evento realizado na casa de um grande músico e agitador cultural, o encontro reúne cerca de 300 convidados, entre artistas, produtores e profissionais da indústria musical, em um ambiente intimista e inspirador no coração de São Paulo. O evento já recebeu nomes como Danilo Caymmi, Alaíde Costa, Vanessa Moreno, Analu Sampaio, João Suplicy e Ana Cañas. Nesta edição, foi homenageado os Demônios da Garoa, um dos grupos musicais mais antigos da história da música.

Nesta edição a Samira venceu o concurso de composição e recebeu 🎸 Um violão artesanal do luthier Samuel Carvalho (que já produziu instrumentos para Djavan e Toquinho), 📹 uma gravação de uma sessão musical audiovisual, para o projeto a ser inaugurado “Sessão Brasilis”, 📸 uma sessão de fotos em estúdio com a fotógrafa profissional, Karina Búrigo e 📣 divulgação exclusiva nas redes sociais do Sarau Brasilis e da Groover.

1. Samira, você foi a artista selecionada pelo edital Sarau Brasilis x Groover e levou o prêmio de composição da noite, pode nos contar como foi tudo isso?

Foi um dia muito especial pra mim, de muitos encontros e muita emoção mesmo. Foi a segunda vez que me inscrevi no edital com a mesma canção, Coragem, e dessa vez passei. Toquei pra muitos artistas que admiro, alguns deles tive a chance de conhecer pessoalmente lá mesmo, e por isso estava nervosa e ao mesmo tempo muito feliz com essa oportunidade, de ter esse espaço pra mostrar um pouquinho do meu trabalho para um novo público, interessado em música brasileira autoral.

A recepção do pessoal todo que estava lá quando toquei foi muito calorosa, e foi muito bacana sentir que houve alguma identificação com a canção. “Coragem” fala de olhar pra si e enfrentar os medos que nos habitam, o medo de tentar mudar a própria realidade e ir mais ao encontro de si mesmo e o medo de não fazê-lo, o medo de dar errado, o medo de dar certo…

Ganhar o título de composição da noite tendo apresentado essa canção, que compus justamente quando pensava em mergulhar mais na música, tocando e cantando sozinha, foi muito simbólico pra mim. Especialmente porque um dos prêmios foi um lindo violão Samuel Carvalho, e isso pra mim foi um grande “sinal” pra continuar tocando, cantando, compondo… seguindo! E tudo isso na frente dos Demônios da Garoa, pense só que honra!

2. Você pode nos contar sobre sua trajetória e seu projeto musical? Como você começou e o que te motivou a levar isso a sério?

A música sempre esteve na minha vida, ocupando um lugar de lazer, de extravasamento mesmo. Comecei tocando piano por influência da minha mãe, que tocava um pouco por ter tias professoras de piano na infância, e depois me apaixonei pelo cantar. Durante a faculdade, (cursei Arquitetura e Urbanismo) acabei me afastando um pouco da música, e logo depois de formada voltei a procurar o canto.

Um pouco depois disso veio a pandemia, e aí essa minha reaproximação com a música se potencializou muito. Era meu refúgio absoluto pra suportar essa fase sombria que vivemos. Nesse período, principalmente, foi que me entendi compositora, e me dei conta da falta que a música fazia na minha vida e da importância dela pra mim, principalmente vivendo esse momento em que a finitude da vida era muito mais palpável e a urgência de viver o que fazia sentido, também.

A partir daí, fui começando a tentar realizar projetos, como lançar um primeiro single, que veio em 2022, fazer os primeiros shows (quando tudo foi reabrindo), e principalmente, procurar a “minha turma”, encontrar as pessoas que estavam nessa mesma fome de compor, de tocar, de cantar, que eu estava, ao mesmo tempo em que trabalhava como arquiteta. Fui então encontrando pessoas, fazendo cursos, aprendendo mais e mais, e crescendo musicalmente, lançando singles, fazendo shows..

E meu projeto musical é totalmente um reflexo disso, dessa sensação de urgência mesmo que me impulsionou a fazer esse movimento em direção à música, a mudar um pouco a rota da vida, procurar mais sentido nela.. Meu primeiro disco, que veio ao mundo em novembro – e que não à toa se chama “Estou Viva” e começa com “Coragem” – é uma síntese de todo esse movimento, e na verdade um desdobramento do show autoral homônimo que comecei a apresentar em 2023/24, e reúne canções que vinha apresentando desde o início da minha trajetória e que se mostraram parte de uma mesma narrativa.

O álbum fala justamente sobre esse mergulho interno, essa autoinvestigação, essa vontade de viver com mais presença, processos que vêm cheios de medos, angústias, desejos e urgências.

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3. Como você descreveria sua música e qual seria a melhor maneira de alguém escutar o seu trabalho?

Eu diria que a minha música parte de um caráter muito confessional, porque fala de temas íntimos, como essa busca por sentido, esse viver se pesquisando e experimentando, medos internos, lamentos de desamor, angústias e desejos. Digo confessional porque é uma extensão do que preciso ou precisei pôr pra fora em algum momento, mas a verdade é que nada do que sentimos é totalmente individual, e as pessoas acabam se encontrando ali.

Busco traduzir tudo isso no formato de canção, com caminhos musicais que convidam a cantar junto. E aí, dependendo da história que quero contar, a música se adapta pra ser mais intimista ou mais expansiva. É MPB, e passeia também pelo samba, forró, pop-rock, pitadas de blues.. uma mistura boa do que bebo da nossa riquíssima cultura brasileira. E acho que o que dá unidade pra tudo isso é a voz e a letra, principalmente.

Acho que a melhor maneira de escutar o meu trabalho é justamente se atentando à letra, que é um grande norte pras minhas composições. Então, eu recomendaria ouvir numa hora tranquila, de fones de ouvido. Talvez naquele momento em que a gente está buscando sentido pras coisas? Mas não só, vale ouvir concentrada, e vale ouvir dançando no meio da sala com os amigos também!


4. Você vai fazer alguns shows na Europa, conte um pouco mais! Teremos datas no Brasil também?

Sim! Tô muito animada e com um baita frio na barriga com essa aventura! Vai ser a minha primeira vez tocando tão longe de São Paulo, minha cidade, em outros países, outro continente!

Essa história começou de um jeito super bonito, com um convite pra cantar num casamento na Alemanha. Aí aproveitei pra estender um pouco a viagem e tentar abrir caminhos pra fazer esses primeiros shows por lá. Vou passar por Berlim, onde faço meu show na Vagabund Kesselhaus dia 28/05 – um evento organizado por um projeto super massa com vários artistas na noite, o Tunes and Tastes – e depois toco em Paris, no Sunside Jazz Club, dia 05/06.

Pra esse show, tenho a alegria de contar com duas participações de queridos e talentosos amigos músicos que moram por lá, a Julia Piedade e o Théo Armen. Além disso, vou fazer uma participação na roda de samba Pingo de Ouro, muita honra de poder de certa forma reverenciar o samba fora de casa com eles! Tô ao mesmo tempo animada, curiosa pro que virá e correndo com as preparações todas!

Com certeza, quando eu voltar vai ter show em São Paulo e a ideia é continuar circulando por outras cidades com o repertório desse meu primeiro disco, o Estou Viva, que tá fresquinho e cheio de histórias pra contar!

5. Qual foi a sua experiência na Groover? O que achou da plataforma?

Meu contato com a plataforma da Groover foi mais direcionado para participar desse e de alguns outros editais, e fiquei muito feliz de ver que as oportunidades oferecidas e pontes feitas são reais. Esses espaços abertos por vocês são bem importantes pra nós, artistas independentes. É por eles que podemos mostrar nosso trabalho, conhecer outros artistas, chegar em outras pessoas…

Enfim, foi através da Groover que pude tocar no Sarau Brasilis pela primeira vez, trocar com outros artistas e ainda ter a felicidade de levar esse prêmio pra casa! Foi uma noite realmente especial, que gerou novas conexões muito legais e que guardo com muito carinho.

6. O que você falaria para os artistas que estão começando?

É curioso responder essa pergunta, porque me sinto também começando em vários aspectos. Na verdade, uma vez que caminhamos, vão surgindo novos desafios, novas primeiras vezes, que vão nos colocando nessa sensação de início de novo, mas de outro lugar. Faz sentido?

Mas o que posso dizer é: comece e siga caminhando! Às vezes a gente fica muito imobilizado, esperando a hora certa de expor um trabalho, ou de fazer tal coisa, e tenho entendido que é no movimento que as coisas se expandem, geram frutos, aprendizados… É no mundo real que elas funcionam ou não, que novos caminhos vão surgir, e não na nossa cabeça. Tenho que me lembrar disso sempre.

Diria, além disso, pra sempre prestar atenção na sua intuição, na sua verdade. Pedir opinião e trocar ideia é valiosíssimo, desde que tudo isso passe por um filtro seu, pra que você se identifique com o que você está fazendo, com as pessoas com quem está trabalhando, etc!

Por fim, vá aos lugares, aos shows, dos seus amigos, conhecidos! Essa rede de apoio que construímos é das coisas mais valiosas que se pode ter na arte (e na vida), e é dela que saem os encontros que nos levam a lugares que nem imaginamos, musicalmente, profissionalmente, e na vida mesmo.

Siga caminhando, que o caminho vai se abrindo, os encontros vão florescendo.. é a máxima: “caminante no hay camino, se hace camino al andar!”

👉 Siga Samira no Instagram

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